Sem título
Luis Fernando Verissimo
Sei que vou morrer aqui dentro. Não sei se nasci aqui dentro. Nem sabia que se nascia, ou como se nascia, até ler, há algumas passagens do sol e das estrelas pela claraboia, um livro de Biologia onde aprendi o que é preciso para nascer: uma mãe, de dentro da qual se sai, e um pai que nos bota dentro da mãe. Se tive uma mãe e um pai, não há vestígios deles aqui. Não há vestígios de ninguém aqui. Só, claro, os livros, vestígios de quem os botou nas estantes em ordem alfabética por autor, assunto ou título. Se não fosse a ordem alfabética eu desconfiaria que os livros sempre estiveram nas estantes, que ninguém os botou ali ou os organizou, mas deduzi pela ordem que houve um organizador dos livros, que depois desapareceu, não sei por onde, já que a única saída daqui é pela claraboia no teto, muito longe do chão para ser uma saída, exceto para um ser alado. Além dos livros, só existe esta escrivaninha, este tinteiro seco, esta pena e estes papéis em que escrevo com meu próprio sangue. Descobri a ordem dos livros muito tarde, por isso só cheguei à Biologia depois de ler ou comer livros de Yoga, Weber e Wittgenstein, passando por Islamismo, Hegel, "Gargantua", Farmácia, Espiritismo, dicionários, Cervantes, Bricolagem etc., pois comecei na ponta errada do alfabeto. Me ensinei a ler com um livro de Zoroastrismo, um processo penoso que levou várias passagens do sol e das estrelas pela claraboia, e só há pouco, na letra C, descobri que existe uma coisa chamada Cartilha que ensina a ler rapidamente, o que teria me poupado muito tempo se eu soubesse antes, e que devorei com raiva. Por ter percorrido o alfabeto de trás para diante li Freud antes de ler Aristóteles, o que me deixou confuso, e a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies antes de ler Gênesis, o que me deixou perplexo, talvez porque toda a questão da descendência humana só começasse a fazer sentido para mim depois que descobri a Biologia, pouco antes de descobrir a Bíblia. Ter lido o livro de Biologia antes de, por exemplo, o Marquês de Sade ou os poemas de Petrarco também teria me ajudado muito e lamentei minha conclusão tardia de que comendo só os livros mais finos e as brochuras eu teria preservado os grossos e os encadernados para fazer a pirâmide com que pretendia chegar à claraboia para sair daqui, e agora não estariam me faltando livros para os últimos degraus. Durante toda a minha vida nunca tive critérios na escolha dos livros para comer e dos livros para ler, comi os mais apetitosos ou que pareciam mais nutritivos, usei meu instinto. Só o instinto explica que eu tenha sobrevivido tanto tempo sem pai nem mãe nem as calorias que são indispensáveis para a vida e o crescimento, como li não me lembro em qual livro que depois comi. Deve ter sido o instinto de sobrevivência, pois não tenho memória do fato, que me levou a descobrir e abrir a porta que levava ao pequeno banheiro anexo à biblioteca, e descobrir e abrir as torneiras que me salvaram de morrer de sede, e usar o vaso onde diariamente expilo o resultado final da dieta de papel, cartolina, couro, cordão, traças e cola que metabolizo, e o espelho onde descobri que sou parecido com os seres que vejo nas ilustrações dos livros, menos os do Picasso, e onde acompanhei a minha lenta transformação de criança em homem. Só quando cheguei na letra B de Burroughs descobri o livro em que Tarzan dos Macacos também aprende a ler sozinho, na biblioteca do seu pai, abandonado com sua mãe na costa da África, da mesma maneira que eu tinha aprendido a ler decifrando o livro de Zoroastrismo, só com menos dificuldade. E só quando cheguei na letra A de Atlas descobri que a África existe mesmo, que é um continente entre outros continentes do globo terrestre, e tive uma iluminação: havia um mundo fora da biblioteca, o mundo não era só o que havia nos livros. Eu chegara a deduzir que saíra de um livro, que era um personagem ou uma ilustração como os outros que simplesmente escapara de um livro, o que explicaria eu estar ali sem qualquer vestígio da minha origem. Mas digerindo o Atlas depois de comê-lo, deitado no chão de barriga para cima, olhando a claraboia lá no alto onde eu via passar o sol e as estrelas e contava o tempo da minha vida, tive a iluminação: os livros eram, todos, sobre um mundo que existia. Lá fora, onde passavam o sol e as estrelas. A biblioteca não era o mundo, era um lugar no mundo, talvez até na África. E no mesmo instante tive outro lampejo: os livros me ajudariam a sair dali! Ao passar por E (Espinoza, Etimologia, "...E o vento levou") lera um livro sobre o Egito e as pirâmides. Era isso! Eu construiria uma pirâmide de livros no chão da biblioteca e, subindo pela pirâmide, chegaria à claraboia, e à saída. Comecei a construir a pirâmide imediatamente, fazendo um grande triângulo com livros no chão. Depois viriam outros triângulos de livros em cima deste, um menor do que o outro, formando degraus que eu galgaria com mais livros para fazer outro triângulo menor do que a anterior, e outro, e outro, até chegar a um triângulo superior de onde eu poderia abrir o vidro da claraboia e sair. Calculei, com a ajuda de um livro de cálculos (aprendi tudo nos livros, inclusive Biblioteconomia e como se fazem livros, e que a gente morre), a altura do chão até o teto e que tamanho deveria ter o triângulo básico para que o cume da pirâmide alcançasse a claraboia, mas logo deparei com outro problema logístico. A pirâmide tinha que ser sólida para não ruir, por isso deveria ser construída com os volumes mais encorpados, portanto mais nutritivos, justamente os que eu precisaria comer para ter forças para construir a pirâmide. O jeito era racionar os livros, mas eu já tinha comido boa parte da biblioteca, não sobravam tantos livros assim para a construir a escada para minha salvação e me alimentar ao mesmo tempo. Decidi trabalhar rapidamente, tentando disfarçar a fome com páginas avulsas e sobrecapas e contracapas arrancadas a esmo, para não afetar o volume dos livros, mas aí aconteceu o seguinte: no processo de carregar os livros das estantes para a pirâmide eu encontrava livros que tinham me escapado (só agora descobri Diderot!) ou que tinham me agradado tanto que eu precisava reler, ou trechos sobre sexo que eu não tinha entendido antes de chegar à Biologia, e muitas vezes me sentava num degrau para lê-los, em vez de trabalhar. Por isso a pirâmide levou mais tempo para ser erguida e eu precisei comer mais para ter força para erguê-la do que o calculado, e o resultado é que faltaram livros para os últimos degraus e nem pulando eu alcanço a claraboia. Concluí que os livros nos enlevam, mas nunca o bastante, e que ao mesmo tempo que nos aproximam de uma revelação final podem nos distrair e atrasar nosso progresso. E decidi que, se não tinha começado num texto, acabaria num texto. A única saída era me transformar num personagem também, como os personagens dos livros, que habitam a biblioteca sem precisar saber por que, ou querer sair, ou se angustiar com o tempo que passa além da claraboia. Assim deixo um sinal de que estive aqui e pelo menos fiz perguntas, e me eternizo como eles. Como Tarzan e os outros. Se o organizador voltar um dia, pela claraboia ou pela porta que eu nunca encontrei, espero que perdoe a bagunça e coloque este meu escrito numa estante em alguma ordem. Preciso pensar num título. Lugar nas estantes é que não faltará, pois tudo que não comi está na pirâmide incompleta. O tinteiro estava seco mas eu sabia onde encontrar tinta, depois de passar a vida cortando dedos em bordas de papel. Estou escrevendo com meu sangue. Outro problema logístico: chegar ao fim deste manuscrito e botar um título antes de me esvair, perder todo o sangue e morrer. E já estou começando a ficar tonto...
Domingo, 28 de setembro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.